Formada por propriedades rurais, igrejas, salões comunitários e famílias ligadas ao trabalho no campo, a região mantém tradições transmitidas entre gerações e desempenha papel importante na economia do município.
Por Redação São Lourenço do Sul
13 de junho de 2026
Distante da movimentação urbana e cercada por lavouras, pequenas propriedades, estradas rurais e paisagens características da Serra dos Tapes, a comunidade de Quevedos representa uma parte importante da identidade do interior de São Lourenço do Sul.
Na região, a vida cotidiana permanece fortemente ligada à agricultura familiar, às igrejas, às escolas, aos salões comunitários e às relações de vizinhança. Festas religiosas, encontros de produtores, formaturas, bailes e celebrações rurais ajudam a manter a união entre as famílias e a preservar costumes transmitidos por diferentes gerações.
A denominação Quevedos aparece em referências locais associada a diferentes núcleos rurais, como Quevedos, Campos Quevedos, Quevedos I e Quevedos II. Documentos municipais também diferenciam Quevedos, no 6º Distrito, de Campos Quevedos, localizado no 2º Distrito. Nesta reportagem, o nome é utilizado em sentido regional, reunindo comunidades que compartilham relações históricas, econômicas e culturais, sem desconsiderar suas identidades próprias.
Uma comunidade formada pelo trabalho no campo
A história de Quevedos está inserida no processo de ocupação e colonização rural de São Lourenço do Sul. A primeira atividade econômica da região foi a pecuária desenvolvida por proprietários portugueses. A partir de 1857, o contrato firmado entre o coronel José Antônio de Oliveira Guimarães e o empresário Jacob Rheingantz deu início à colonização europeia das terras do interior.
A chegada de imigrantes de língua alemã, especialmente pomeranos, modificou profundamente a paisagem e a organização social da zona rural. As terras foram divididas em lotes menores, ocupados por famílias que passaram a trabalhar principalmente com agricultura, criação de animais e produção destinada ao consumo doméstico e à comercialização.
Ao longo das décadas, as propriedades foram passadas de pais para filhos. Casas, galpões, igrejas, cemitérios, salões e antigas estradas rurais transformaram-se em referências da memória comunitária.
Embora os métodos de produção tenham mudado com a mecanização e a introdução de novas tecnologias, a participação da família no trabalho rural continua sendo uma característica marcante da região.
Agricultura familiar movimenta a economia
A agricultura constitui a principal base econômica de Campos Quevedos e das localidades próximas. Entre as atividades presentes estão a fumicultura, a produção de milho, feijão, batata-doce, hortaliças, leite, carne e alimentos destinados ao consumo das próprias famílias.
A importância da produção de tabaco ficou evidenciada em dezembro de 2022, quando Campos Quevedos foi escolhida para sediar a 5ª Abertura Oficial da Colheita do Tabaco no Rio Grande do Sul. A cerimônia ocorreu em uma propriedade situada às margens da ERS-265 e reuniu agricultores, entidades representativas e autoridades estaduais e municipais.
A escolha da localidade demonstrou a relevância das famílias produtoras de Quevedos para a cadeia produtiva regional. O cultivo do tabaco gera renda, movimenta o comércio e demanda serviços de transporte, assistência técnica, fornecimento de insumos e manutenção de equipamentos.
Ao mesmo tempo, a dependência de uma única cultura representa riscos relacionados ao clima, aos custos de produção e às oscilações do mercado. Por isso, projetos de diversificação, recuperação do solo e produção de alimentos ganham importância para a sustentabilidade econômica das propriedades.
Em uma atividade promovida pela Emater e pela Prefeitura, produtores conheceram experiências com batata-doce, feijão, segurança alimentar e unidades de referência técnica. A ação contou com a participação da Associação de Quevedos e de representantes comunitários, mostrando a busca por alternativas produtivas e pelo fortalecimento da agricultura familiar.
Quevedos II também esteve entre as localidades incluídas nas reuniões da Operação Terra Forte, iniciativa destinada à recuperação produtiva e ambiental dos solos atingidos por eventos climáticos.
Festa do Fumo tornou-se referência regional
Uma das celebrações mais conhecidas da região é a Festa do Fumo, realizada no Salão Ziebell, em Campos Quevedos. O evento surgiu como uma forma de homenagear as famílias fumicultoras e passou a reunir exposições, concursos, apresentações musicais, máquinas agrícolas, comércio, gastronomia e atividades recreativas.
A programação costuma aproximar moradores de diferentes localidades, produtores rurais, empresas e visitantes. Em 2024, a festa chegou à 12ª edição, mantendo sua ligação com a produção agrícola e com a vida social da comunidade.
Edições anteriores contaram com concurso de qualidade do tabaco, exposição de implementos, apresentações culturais, brincadeiras para crianças e escolha da corte da festa. Mais do que promover uma atividade econômica, o encontro funciona como espaço de convivência e valorização das famílias do campo.
A Festa do Colono e do Motorista também integra a vida comunitária, homenageando agricultores e profissionais responsáveis pelo transporte de pessoas, alimentos, animais, insumos e produtos agrícolas.
Cultura pomerana permanece viva
A presença pomerana pode ser observada nos sobrenomes, nas receitas, nas celebrações religiosas, na música, nas danças, na organização familiar e na maneira de trabalhar a terra.
Em muitas famílias, o idioma pomerano ainda é compreendido ou falado, especialmente pelas gerações mais velhas. Estudos realizados na região registram a permanência de práticas religiosas, narrativas, objetos e documentos associados à cultura pomerana em residências de Campos Quevedos e de outras comunidades rurais de São Lourenço do Sul.
A preservação cultural também passa pela escola. Alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Martinho Lutero já apresentaram danças inspiradas no trabalho e nos costumes pomeranos durante uma festa da Comunidade São Pedro de Campos Quevedos.
A atividade envolveu estudantes e professores e integrou um processo mais amplo de valorização da arte, da cultura e do conhecimento pomerano.
Além das manifestações públicas, a cultura permanece dentro das casas por meio da culinária. Pães, cucas, bolachas, conservas, geleias, linguiças, carnes e receitas preparadas para festas familiares representam saberes transmitidos oralmente entre gerações.
Igrejas e salões são centros da comunidade
As comunidades religiosas exercem uma função que vai além da celebração da fé. Igrejas e salões funcionam como espaços de encontro, apoio entre vizinhos, reuniões, festas, almoços, casamentos, homenagens e atividades escolares.
Entre as organizações existentes na região estão a Comunidade Evangélica São Pedro de Campos Quevedos, a Comunidade Evangélica de Quevedos I e a Comunidade Evangélica Livre São Paulo de Quevedos II. Registros oficiais mostram que algumas dessas entidades possuem décadas de atuação e organização formal.
A presença adventista também possui raízes antigas. Um levantamento histórico registra que os primeiros 23 batismos adventistas em Campo dos Quevedos ocorreram em 6 de março de 1905, revelando a diversidade religiosa existente na região desde o início do século XX.
Os salões São João e São Paulo aparecem frequentemente como locais de atividades comunitárias. Formaturas da Escola Martinho Lutero, por exemplo, já reuniram estudantes, professores, familiares e moradores nesses espaços.
Escola ajuda a manter a comunidade unida
Em localidades rurais, a escola representa muito mais do que um lugar de ensino. Ela aproxima as famílias, promove ações culturais, preserva a história local e ajuda crianças e adolescentes a desenvolverem vínculos com o território onde vivem.
A Escola Martinho Lutero aparece como uma das instituições mais presentes na vida de Quevedos. Suas atividades envolvem apresentações artísticas, cerimônias de conclusão do ano letivo e participação em festividades organizadas pelas comunidades religiosas.
A realização das formaturas nos salões locais demonstra a integração entre escola e comunidade. Pais, avós, professores, vizinhos e lideranças dividem o mesmo espaço para acompanhar o crescimento dos estudantes.
O desafio enfrentado pelas escolas rurais está relacionado à distância entre as propriedades, ao transporte escolar, à manutenção das estradas e à redução da população jovem no campo. A permanência das famílias e dos serviços públicos é decisiva para evitar o enfraquecimento das comunidades.
Distância exige transporte e boas estradas
Campos Quevedos está ligada à sede de São Lourenço do Sul principalmente pela ERS-265 e por estradas secundárias. Dependendo do ponto de partida, moradores podem percorrer dezenas de quilômetros para acessar bancos, hospitais, órgãos públicos e serviços comerciais.
Uma reportagem municipal apresentou o caso de um jovem artesão que percorria aproximadamente 55 quilômetros de Campos Quevedos até o centro de São Lourenço do Sul para comercializar peças de madeira. O exemplo mostra como a distância influencia a rotina de quem vive e trabalha no interior.
Desde janeiro de 2026, uma linha de ônibus passou a sair da rodoviária de São Lourenço do Sul às 7h e retornar de Quevedos às 18h, de segunda a sexta-feira, utilizando o trajeto asfaltado da ERS-265. O horário foi apresentado como uma alternativa para trabalhadores, empresários e moradores do interior.
A disponibilidade de transporte coletivo é fundamental para estudantes, idosos, trabalhadores e moradores que não possuem veículo próprio. Mudanças de horários, redução de linhas ou problemas nas estradas podem deixar famílias rurais isoladas.
Energia e comunicação são desafios permanentes
O fornecimento de energia elétrica é essencial para o funcionamento das propriedades. Ordenhadeiras, resfriadores de leite, sistemas de irrigação, estufas, freezers, bombas de água e equipamentos domésticos dependem de uma rede estável.
Em 2022, Campos Quevedos esteve entre as localidades mencionadas em uma reivindicação municipal por melhorias no fornecimento de energia. As interrupções provocavam prejuízos na produção de leite, no armazenamento de carnes e na secagem do tabaco.
A expansão da internet rural também representa uma necessidade crescente. O acesso à rede permite emissão de documentos, acompanhamento de preços, compra de insumos, ensino a distância, comunicação com serviços públicos e utilização de tecnologias agrícolas.
Estradas conservadas, energia confiável, telefonia e internet não devem ser vistas apenas como comodidades. São estruturas essenciais para garantir qualidade de vida e condições de permanência no campo.
Artesanato revela criatividade dos moradores
A produção artesanal é outra expressão da identidade local. Peças de madeira, objetos decorativos e trabalhos manuais mostram que a economia de Quevedos não se limita às lavouras.
O jovem artesão Alex Podewils, de Campos Quevedos, participou do Projeto Integrar, iniciativa que abriu espaço para produtores e artesãos comercializarem seus trabalhos no centro de São Lourenço do Sul. Além das vendas, o projeto possibilitou novos contatos e encomendas.
Experiências desse tipo podem estimular a geração de renda entre jovens, mulheres e famílias rurais. Também ajudam a transformar habilidades tradicionais em pequenos empreendimentos.
Potencial para turismo rural e cultural
Quevedos reúne elementos que podem contribuir para o desenvolvimento do turismo comunitário: paisagens rurais, gastronomia, arquitetura, religiosidade, festas, artesanato e memória pomerana.
A região ainda não possui a mesma visibilidade turística da orla de São Lourenço do Sul ou de roteiros rurais já consolidados. No entanto, atividades organizadas com participação dos moradores poderiam criar novas oportunidades de renda.
Visitas a propriedades, cafés coloniais, feiras de produtos, exposições de máquinas antigas, apresentações culturais e roteiros pelas igrejas são algumas possibilidades. Qualquer iniciativa, entretanto, precisa respeitar a rotina das famílias, o ambiente rural e a capacidade de atendimento das comunidades.
O turismo não deve transformar moradores em peças de exposição. O objetivo deve ser valorizar a história local e permitir que a renda gerada permaneça entre as próprias famílias.
Juventude e sucessão rural preocupam famílias
Um dos maiores desafios de Quevedos e de outras localidades do interior é a permanência dos jovens. Muitos deixam a região para estudar ou procurar emprego na área urbana e nem sempre retornam às propriedades.
A sucessão rural depende de renda, acesso à tecnologia, formação profissional, conectividade e possibilidade de participação dos jovens nas decisões familiares.
Programas de aprendizagem rural já incluíram Quevedos e Campos Quevedos entre as comunidades atendidas, priorizando adolescentes oriundos de famílias de produtores e trabalhadores rurais.
Investir na juventude não significa apenas ensinar técnicas agrícolas. Também envolve criar condições para que novas atividades, como agroindústrias, turismo, artesanato, comércio digital e prestação de serviços, possam ser desenvolvidas no interior.
Uma comunidade construída coletivamente
Quevedos representa a força das comunidades rurais de São Lourenço do Sul. Sua importância não pode ser medida apenas pela quantidade produzida nas lavouras.
A região guarda conhecimentos sobre cultivo, culinária, religiosidade, cooperação e vida comunitária. Cada igreja, salão, escola, propriedade e estrada carrega parte de uma história construída por famílias que enfrentaram distâncias, dificuldades climáticas e transformações econômicas.
Preservar Quevedos significa garantir estradas, transporte, energia, internet, educação, saúde e apoio à produção. Também significa reconhecer o valor cultural das famílias que mantêm viva uma parte fundamental da identidade lourenciana.
Entre lavouras, festas e encontros comunitários, Quevedos segue mostrando que o interior não é apenas um espaço de produção. É um lugar de memória, pertencimento e continuidade.
https://www.saolourencodosul.com.br/quevedos-preserva-agricultura-familiar-cultura-pomerana-e-forte-vida-comunitaria-no-interior-de-sao-lourenco-do-sul/
Web3/Blockchain Arweave
