Língua, gastronomia, agricultura familiar, música e costumes transmitidos entre gerações transformaram a herança dos imigrantes em patrimônio cultural e atração turística do município
Da Redação São Lourenço do Sul
SÃO LOURENÇO DO SUL — Presente nas conversas familiares, nas receitas preparadas em fogões coloniais, nos corais, nas festas comunitárias e no cotidiano das propriedades rurais, a cultura pomerana permanece como um dos principais elementos da identidade histórica de São Lourenço do Sul.
A herança começou a criar raízes no município em 18 de janeiro de 1858, quando os primeiros 88 imigrantes chegaram à então Colônia de São Lourenço. A Casa da Imigração Jacob Rheingantz, construída por volta de 1860, preserva a memória daquele período e do processo de ocupação da região. Em 1877, a colônia já abrangia 52 mil hectares e reunia mais de 6 mil imigrantes e descendentes.
Estudos históricos indicam que aproximadamente 80% dos imigrantes que chegaram à colônia a partir de 1858 eram de origem pomerana. Eles vieram de uma região histórica situada entre os atuais territórios da Alemanha e da Polônia e encontraram, na Serra dos Tapes, condições muito diferentes das conhecidas na Europa.
Mais de um século e meio depois, seus descendentes continuam preservando formas de falar, produzir alimentos, trabalhar a terra, celebrar casamentos, organizar comunidades e transmitir conhecimentos.
Colonização transformou o interior do município
Os primeiros colonos enfrentaram mata fechada, dificuldades de transporte, doenças e a necessidade de construir praticamente toda a infraestrutura necessária para viver e produzir.
As famílias abriram caminhos, formaram pequenas propriedades, construíram moradias, organizaram lavouras e criaram redes de apoio entre vizinhos. A agricultura familiar tornou-se a base econômica e social de grande parte do interior lourenciano.
A relação com a terra ultrapassou a simples atividade produtiva. Técnicas de cultivo, criação de animais, conservação de alimentos, aproveitamento de ervas e organização do trabalho familiar passaram a integrar um modo de vida transmitido entre gerações.
Essa ligação entre cultura e produção ainda pode ser observada no Caminho Pomerano, que reúne propriedades rurais, agroindústrias, artesãos, espaços gastronômicos, acervos familiares e construções históricas.
Língua pomerana resiste dentro das famílias
Um dos elementos mais importantes dessa identidade é a língua pomerana.
São Lourenço do Sul está entre os municípios brasileiros onde ela continua sendo utilizada por descendentes, principalmente em comunidades do interior. Para muitas famílias, o pomerano foi a primeira língua aprendida em casa e permanece presente nas conversas entre pais, filhos, avós e vizinhos.
Durante muito tempo, a transmissão ocorreu principalmente pela oralidade. Essa característica ajudou a manter a língua viva, mas também criou dificuldades para seu registro escrito e para o ensino sistemático às novas gerações.
Projetos escolares, pesquisas universitárias, documentários e atividades culturais passaram a contribuir para a valorização do idioma. Em comunidades com grande número de falantes, escolas desenvolvem ações relacionadas à língua, à música, à dança, aos corais e à memória das famílias.
Em 2025, uma pesquisa sobre o contato entre o pomerano e o português falado na Metade Sul do Rio Grande do Sul foi apresentada em um encontro acadêmico na Universidade Ludwig, em Munique. O trabalho resultou de parceria entre pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A continuidade da língua depende não apenas das instituições, mas principalmente do uso cotidiano. Quando deixa de ser falado dentro de casa, um idioma pode perder espaço rapidamente, mesmo que seja apresentado em festas e eventos.
Gastronomia preserva histórias familiares
A culinária é uma das expressões mais conhecidas da cultura pomerana em São Lourenço do Sul.
Cucas, pães, bolachas, queijos, linguiças, schimiers, conservas, licores, café colonial e carnes preparadas por métodos tradicionais fazem parte do patrimônio alimentar preservado pelas famílias e agroindústrias.
O Caminho Pomerano inclui experiências de degustação e comercialização desses produtos, além de receitas transmitidas entre gerações. Entre as especialidades apresentadas pelo roteiro estão a cuca pomerana, os queijos coloniais, a linguiça, o peito de ganso defumado e o Maischnaps, bebida preparada com cachaça e ervas.
A Casa das Cucas Pomeranas representa essa continuidade. O espaço utiliza uma receita familiar para preservar lembranças dos antepassados e também comercializa pães, bolachas, cucas e artesanatos.
Esses alimentos não são apenas produtos turísticos. Eles representam técnicas domésticas desenvolvidas em períodos em que as famílias precisavam aproveitar safras, conservar carnes e frutas e produzir boa parte do que consumiam.
Quando uma receita é preparada por filhos e netos, ela mantém vivos gestos, palavras, medidas e lembranças que nem sempre aparecem nos documentos históricos.

Casamento Pomerano tem noiva vestida de preto
Entre os costumes apresentados aos visitantes está a encenação do Casamento Pomerano, conhecida especialmente pela noiva vestida de preto.
A representação também inclui o Convidador, personagem tradicionalmente associado ao irmão mais novo da noiva. Na véspera do casamento, ele percorria as propriedades, muitas vezes a cavalo, para convidar as famílias vizinhas para a celebração.
A encenação recupera elementos das antigas festas comunitárias, nas quais o casamento mobilizava parentes, vizinhos, músicos e pessoas responsáveis pela preparação dos alimentos.
As celebrações podiam se estender por várias horas e envolviam rituais, músicas, discursos, refeições e formas particulares de organização.
Ao ser apresentada no turismo cultural, a tradição desperta curiosidade, mas também exige contextualização. O significado dos costumes não pode ser reduzido apenas à roupa ou à fotografia; ele está relacionado às condições sociais e às formas de convivência das comunidades de origem.
Corais e música fortalecem os vínculos comunitários
A música também ocupa lugar relevante na formação cultural pomerana.
Grupos de canto coral misto e orfeônico ajudaram a reunir famílias, celebrar atividades religiosas e fortalecer relações entre comunidades. Pesquisas sobre a cultura local identificam a permanência dessa tradição entre os descendentes de imigrantes.
Os corais funcionam como espaços de convivência e transmissão cultural. Além das melodias, preservam pronúncias, expressões e repertórios aprendidos com gerações anteriores.
Bandas, danças, festivais escolares e encontros comunitários ampliaram as formas de apresentação dessa herança.
A valorização precisa alcançar também os jovens. Quando crianças e adolescentes participam de grupos culturais, deixam de enxergar a tradição apenas como uma lembrança dos mais velhos e passam a reconhecê-la como parte de sua própria identidade.
Religiosidade participa da organização das comunidades
A religiosidade teve influência importante na organização social das comunidades formadas no interior.
Igrejas, escolas comunitárias, salões e cemitérios tornaram-se pontos de encontro e referências territoriais. Festas religiosas, celebrações familiares e atividades coletivas ajudaram a manter as redes de solidariedade.
Em muitas localidades, religião, educação e vida comunitária estiveram diretamente ligadas. Os mesmos espaços podiam receber cultos, reuniões, aulas, corais e confraternizações.
Esse modelo contribuiu para a preservação de valores relacionados ao trabalho coletivo, à cooperação entre vizinhos e ao cuidado com as instituições locais.
Caminho Pomerano transforma patrimônio em turismo
A criação do Caminho Pomerano permitiu que parte da história do interior fosse organizada em um roteiro de turismo rural.
O visitante encontra gastronomia típica, artesanato, ervas medicinais, prédios antigos, objetos familiares, propriedades produtivas, coleções e paisagens da Serra dos Tapes. As visitas normalmente precisam ser agendadas previamente.
O roteiro aproxima os turistas dos moradores e transforma o cotidiano rural em experiência cultural. Em vez de observar peças isoladas em uma vitrine, o público conhece histórias dentro das propriedades onde elas foram construídas.
Agroindústrias e empreendimentos familiares também encontram uma oportunidade de comercializar produtos e complementar a renda.
Esse modelo demonstra que a preservação cultural pode estar associada ao desenvolvimento econômico, desde que respeite as comunidades e não transforme suas práticas em simples cenários.
Cultura gera renda no meio rural
A valorização da identidade pomerana ampliou as oportunidades para produtores, cozinheiras, artesãos, condutores turísticos, proprietários de pousadas e pequenos empreendedores.
Produtos que antes eram preparados apenas para o consumo familiar passaram a alcançar visitantes e novos mercados.
O turismo também cria demanda para restaurantes, comércio, hospedagem, transporte, fotografia, eventos e comunicação.
Uma pesquisa acadêmica sobre o município identificou que o fortalecimento do turismo rural e da indústria doceira, a partir dos anos 2000, esteve relacionado à valorização das atividades e dos produtos da vida colonial.
O desenvolvimento, porém, precisa ocorrer com equilíbrio. A busca por atratividade comercial não deve substituir a diversidade real das famílias por uma representação única e idealizada do que seria “ser pomerano”.
Memória também é preservada em objetos e edifícios
Casas, ferramentas agrícolas, documentos, fotografias, roupas, móveis e utensílios ajudam a contar uma história que não pode ser reconstruída apenas por registros escritos.
O Caminho Pomerano inclui acervos familiares que apresentam a trajetória de pessoas que atravessaram o Atlântico e construíram uma nova vida no sul do Brasil.
Um dos espaços do roteiro mantém antiguidades, fotografias, veículos, artesanato e um vestido centenário ligado à memória de uma família imigrante.
A Casa da Imigração Jacob Rheingantz permanece como um dos principais símbolos do início da colonização. Embora sua visitação esteja atualmente limitada à parte externa, o prédio continua representando a chegada dos primeiros imigrantes e a formação da antiga colônia.
A preservação desses locais exige manutenção, pesquisa histórica, segurança e formas adequadas de acesso público.
Livro registra trajetória do Caminho Pomerano
A memória do roteiro também foi reunida no livro “Registros históricos do Roteiro de Turismo Rural Caminho Pomerano”, lançado em 2024.
A obra coletiva contou com textos de pessoas que participaram da criação e do desenvolvimento do projeto, além de professores, estudantes, escritores, gestores e integrantes dos empreendimentos.
O objetivo apresentado pelos organizadores foi registrar o trabalho de homens e mulheres que contribuíram para preservar a história e a cultura pomerana em São Lourenço do Sul.
A publicação ajuda a documentar experiências que poderiam desaparecer com a passagem do tempo e contribui para que futuras gerações compreendam como ocorreu o processo de valorização cultural.
Preservação enfrenta desafios
Apesar da força das tradições, a cultura pomerana enfrenta desafios.
A migração de jovens para áreas urbanas, a redução do uso cotidiano da língua, as mudanças nas atividades agrícolas e o desaparecimento de moradores mais antigos podem interromper a transmissão de conhecimentos.
Outro risco é limitar a cultura a datas comemorativas. Festas e apresentações possuem importância, mas a preservação depende de ações contínuas nas famílias, escolas, comunidades, universidades, museus e políticas públicas.
Registrar depoimentos, digitalizar fotografias, apoiar grupos culturais e incentivar o ensino da língua são medidas capazes de ampliar a continuidade desse patrimônio.
Também é necessário reconhecer que as comunidades mudam. Preservar não significa impedir transformações, mas garantir que as novas gerações tenham acesso à história e possam decidir como manter essa identidade no presente.
Uma cultura viva, não apenas uma recordação
A cultura pomerana de São Lourenço do Sul não está presente apenas em museus ou documentos antigos.
Ela continua nas palavras faladas durante o trabalho, nas receitas preparadas para a família, nos corais, nos jardins, nas agroindústrias, nas igrejas, nas escolas e nas propriedades do interior.
Sua importância não se limita aos descendentes dos imigrantes. A herança pomerana participa da formação econômica, social e cultural de todo o município.
Ao preservar a língua, os costumes e a memória, São Lourenço do Sul também fortalece sua identidade e cria oportunidades para educação, pesquisa, turismo e desenvolvimento rural.
O futuro dessa cultura dependerá da capacidade de unir tradição e transformação, permitindo que os conhecimentos dos antepassados continuem fazendo sentido para quem vive no município hoje.
